São João do Rio Vermelho nasceu da Resolução Régia de 11 de agosto de 1831, com uma área estimada de 31,68km2. Hoje, abrange o Parque Florestal do Rio Vermelho, Moçambique e São João do Rio Vermelho, que é sede do Distrito.
A cor avermelhada que adquire a água do rio no seu percurso, desde a nascente até à foz, na Lagoa Conceição, correndo por terreno barrento, em época de chuva, deu origem ao nome da freguesia.
O cultivo da mandioca, café, feijão, açúcar e do amendoim e a pesca artesanal impulsionaram o desenvolvimento do povoado fundado por açorianos no século XVIII, quando, estabelecidos na freguesia da Lagoa da Conceição, avançaram pela região à procura de terrenos férteis e campos de pastagem.
A história cultural e social da localidade está gravada nos seus casarões coloniais, engenhos de farinha de mandioca e irradia-se por sítios arqueológicos: sambaquis, oficinas líticas, inscrições rupestres, algumas até de origem pré-colombiana.
A igreja em louvor a São João Batista começou a ser construída em 1756. Com a sua arquitetura singela é um importante marco histórico e em seu redor prosperou a freguesia conhecida pela sua expressiva produção artesanal de farinha de mandioca. Foi elevada a Paróquia em 1831 e foi seu primeiro pároco o Padre António de Santa Pulquéria Mendes de Oliveira, que ficou conhecido pela sua sabedoria e pela contínua luta junto às autoridades da Província em defesa da manutenção do património religioso.
Não se sabe ao certo quando começou a celebração do Espírito Santo no Rio Vermelho. Os moradores mais antigos lembram-se dos pais, dos avós fazendo o “Divino” ou contando histórias sobre a passagem da Bandeira e da corte, que tinha apenas o “pade-espadim” e a menina Imperatriz. Nas suas memórias, o registo da Festa está relacionado com a época da tainha (maio e junho). Os pescadores traziam a Bandeira do Divino, desde a freguesia do Rio Vermelho até à Praia dos Ingleses, presa num mastro bem alto. Os ranchos dos pescadores e as baleeiras eram enfeitados com bandeirinhas e flores para receberem a visita do “Santo”. Os Foguetes e a reza da novena na capela do Sagrado Coração completavam o périplo.
Nos últimas décadas, pouco se alterou o ritual da celebração do Espírito Santo.
A Bandeira ainda sai em visita sob a coordenação do Casal Imperador com a participação dos Irmãos do Divino (não constituem Irmandade na acepção da palavra) e voluntários levando a Coroa, o Cetro e a Bandeira, tendo à frente uma pessoa que toca tambor e anuncia a visita.
A Bandeira saía em visita, percorrendo as localidades de Muquém, Capivari, Praia dos Ingleses e Rio Vermelho sob a guarda dos Irmãos e acompanhado dos foliões que costumavam cantar em agradecimento pelas ofertas recolhidas:
Desse uma fita a bandeira
E nesta hora tão querida
É uma fita encarnada
Uma fita encarnada, ái …
Este sinhô já voltou.
Este sinhô já voltou
E vem chegando à sua morada, ái …
Com esta bandeira sagrada
Com esta bandeira sagrada, ái …
Antigamente, três dias antes da festa, o Imperador, acompanhado pelos Irmãos do Divino, levava a Bandeira, a coroa, a salva e o cetro para a sua residência e depositava-os num altar armado na sala principal da casa e dava início às novenas da véspera dos festejos.
No sábado, uma procissão de Irmãos com as suas opas vermelhas levando tochas acesas e Bandeiras do Divino, o pároco e a população dirigem-se para a casa do Imperador, a fim de convidá-Io para dar início à festa em honra ao Espírito Santo, assistindo na Igreja à novena cantada.
Barraquinhas, bailes e a banda de música animam a praça fronteiriça à igreja e ao Império, até tarde da noite. A voz do leiloeiro, com as suas tiradas de humor impagável, apregoa as prendas e diverte o público.
A noite encerra-se com uma queima de fogos que será maior ou menor conforme a posse do Casal Imperador.
O mesmo ritual do sábado tem lugar no domingo pela manhã, quando todos se dirigem à Igreja onde é celebrada a missa solene em louvor ao Divino e será coroado o Imperador-menino pelo sacerdote que preside a cerimónia. Durante a missa, o Festeiro retira a coroa da cabeça do Imperador e substitui-a pelo chapéu imperial. No final da missa, o Imperador-menino recebe novamente a coroa e a Imperatriz-menina o cetro. Em cortejo, acompanhados pelos Irmãos e populares, seguem para o Império onde são reverenciados e onde ocorrem os atos tradicionais de entrega das massas de promessa e o beijo na pombinha que encima o cetro ou a Bandeira do Divino. As massas sovadas seguem a mesma receita dos seus antepassados e são moldadas na forma de braços, cabeças, pés, coração, corpo, conforme a promessa feita. Na praça da Igreja os festejos continuam divertindo os populares que vieram de todos os lados para participarem da Festa.
A meio da tarde é anunciado o nome do Novo Imperador e com grande acompanhamento o sacerdote e o atual Imperador, tendo à frente a banda musical, vão à casa do escolhido entregar-lhe as alfaias simbólicas.
Nestes anos todos de observação da festa do Espírito Santo na localidade do Rio Vermelho, verifica-se a força da tradição presente no quotidiano das pessoas e a alegria do convívio na partilha de momentos coletivos, como no almoço festivo que, realizado no domingo, era servido num imenso pavilhão com capacidade para mil pessoas sentadas. Infelizmente, hoje já não oferecido, mas sim vendido. Os tempos mudaram. O lucro da festa vai para a manutenção da capela e, muitas vezes, é a única forma de se arrecadarem recursos para promover algum benefício ou melhoramento no templo.
A Igreja de São João Batista deixou de realizar a Festa em 1983 e 1984, voltando a fazê-la em 1985. A tradição foi revivificada e a festa em Louvor ao Espírito Santo voltou a ser celebrada com a mesma pujança e devoção do passado.








