Santo António de Lisboa, está situado na costa ocidental a cerca de 16km do centro de Florianópolis e é uma das três povoações mais antigas da Ilha de Santa Catarina. O Distrito foi criado pela Provisão Régia de 26 de outubro de 1751. Fazem parte deste as localidades de Cacupé, Sambaqui, Barra do Sambaqui e Santo António de Lisboa, que é a sede.
Quem chega a Santo António de Lisboa e percorre as suas ruas e praças, observa o seu casario e a sua secular igreja onde se realizam as festas do Divino, retrocede 300 anos no tempo.
A história da sua ocupação data de 11 de janeiro de 1698, quando Padre Mateus de Leão, chega à região com vinte casais portugueses e se instala no lugar. No entanto, a póvoa só começa a florescer com a construção de um entreposto comercial marítimo em Sambaqui, em 1714.
Para que os “casais” não ficassem sem assistência espiritual e sem Igreja, por alvará régio de Dom João V de 27 de abril de 1750, foi criada a freguesia Nossa Senhora das Necessidades “da Ponta Comprida”, sendo nomeado seu vigário o Padre Domingos Pereira Telles, natural da Ilha do Pico, Açores, até 1778. O Relatório administrativo do Governador João Alberto de Miranda Ribeiro, enviado para Lisboa em 1797, apresentou dados da Freguesia ao enumerar os estabelecimentos fabris, as atafonas, os curtumes e os engenhos de farinha de mandioca.
No ano de 1943, mudou o nome de Santo António para “Rerituba”, nome nunca aceite e nem adotado pela população e que, em 1948, foi substituído pelo atual Santo António de Lisboa.
No arquivo histórico-eclesiástico de Santa Catarina não se encontram registos sobre as festividades em honra do Espírito Santo na freguesia de Santo António de Lisboa, nos séculos XVIII e XIX.
Sobre o culto em louvor ao Espírito Santo e sobre a realização da respetiva festa com a cerimónia de coroação do Imperador, o registo mais concreto de que se tem conhecimento, data ndo século XIX, em 1845.
A criação da Irmandade do Espírito Santo, atribui-se a D. Joaquim Domingos de Oliveira, à frente da diocese entre 1914 e 1967. D. Joaquim deu posse à primeira diretoria da Irmandade de Divino Espírito Santo, tendo sido eleitos como Provedor Victor Fangier e Vice-provedor Sebastião Alexandrino de MeIo.
Portanto, o que se sabe antes da criação da Irmandade em 1927 é fruto da tradição oral e da memória coletiva do lugar, que menciona a realização da festa a partir da última metade do século XVIII.
Em Santo António de Lisboa, o Ciclo do Divino inicia-se no domingo de Pentecostes com a Visita da Bandeira do Divino às casas da freguesia. Todavia, a festa só ocorre na primeira semana de setembro, coincidindo com o dia da padroeira. É a festividade que encerra o calendário do Ciclo do Divino na região da Grande Florianópolis e uma das maiores celebrações de louvor ao Espírito Santo, com uma extensa programação voltada, essencialmente, para a confraternização da comunidade, para o fortalecimento da religiosidade e para manter viva a cultura açoriana sobrevivente.
A partir do domingo de Pentecostes, a Bandeira, Coroa e Cetro saem para visitar as localidades que integram o Distrito de Santo António. A Bandeira do Divino, durante o período que permanece em cada comunidade, é levada de casa em casa, abençoando as famílias e pedindo donativos para a festa. A sua chegada é anunciada pelo toque forte e cadenciado de um tambor e recebida com muita alegria e devoção pelos moradores que beijam o estandarte, a pomba que encima o mastro, cortam pedaços das fitas ou penduram fitas como pagamento de promessas. No lado de fora da casa, cantando versos o encarregado da Bandeira e o grupo que acompanha o peditório pedem licença para entrar. No interior da morada cantam novamente, rezam orações e fazem o peditório. A Bandeira percorre os aposentos da casa, é colocada sobre a cabeça das crianças e cobre o corpo dos enfermos. Enfim, é reverenciada com muita fé. Na saída, agradecem a receção, a esmola e fazem a despedida partindo para a casa vizinha.
Por onde passa a Bandeira ainda são rezadas novenas com ladainhas cantadas em latim como no tempo do senhor Valério João de Souza (1888-1967), que foi capelão das novenas do Divino e tinha por missão percorrer todo o Distrito levando a Bandeira peditória e rezando a novena em preparação para a festa do Divino. Quando acabava de rezar, passava a desempenhar o papel de leiloeiro, animando os leilões das prendas e massas doadas. Também era o senhor Valério quem arrumava a igreja, os paramentos do sacerdote, selecionava os cantos e as orações da missa. Organizava a festa do Divino desde a preparação da Irmandade, dos rituais e cerimónias da coroação do “Rei” até à decoração dos altares e do adro da igreja que enfeitava com bandeirolas e lanternas coloridas por ele confecionadas com muita arte. Um nome que não pode ser esquecido quando o assunto é a Festa do Divino em Santo António, conta Paulo Pires de Andrade na crónica História de um Homem, em Histórias de Sambaqui (1998: 81-82).
A Festa é realizada por uma comissão organizadora responsável por toda a estrutura funcional, planeamento e execução da programação cultural e religiosa. A comissão é formada pela Diretoria da Irmandade do Divino Espírito Santo e Nossa Senhora das Necessidades, presidida pelo Vigário Paroquial e administrada pelo Provedor, tendo à frente o Casal Imperial escolhido pelos irmãos e pelo pároco. É uma escolha de consenso, tirada de uma lista de nomes indicados pela comunidade e pelos irmãos que levam em conta a vivência religiosa e a expressiva participação do casal nas atividades comunitárias. Por este motivo, há preferência pelos moradores do Distrito, embora este não seja um fator excludente. Hoje, o critério político e a situação económica do candidato não são considerados, como já sucedeu no passado, quando a escolha recaía sobre autoridades políticas do Estado e do Município e de pessoas abastadas que tivessem condições financeiras para patrocinar as despesas do festejo. Pessoas que, nem sempre, possuíam qualquer vínculo com a freguesia. Infelizmente, este critério é ainda observado noutras festas realizadas no território catarinense que vêm na tradicional festividade, graças aos proventos aferidos, a oportunidade de garantirem a manutenção da Igreja e a continuidade das obras sociais da Paróquia.
São coadjuvantes dessa grande festa os Mordomos e os Juízes do Divino e de Nossa Senhora das Necessidades. Os Mordomos participam nas novenas como convidados de honra e oferecem prendas e donativos em dinheiro.
Os Juízes são convidados pela Irmandade e pelo Casal Imperial para colaborarem diretamente na organização e execução da festa formando verdadeiras equipas de trabalho. Constitui uma honra ser chamado para Juiz da festa e é comum pessoas oferecerem-se para executar uma das funções dos Juízes em pagamento de promessas feitas ao Espírito Santo ou à santa padroeira. Basta um simples olhar no programa da festa para constatar o grande número de pessoas convidadas para serem Juízes. Uma extensa lista que, a cada ano, é acrescida de mais um nome. Para se ter uma ideia do que isso representa, destaco o ano de 2005, em que foram convidados 240 juízes, dos quais 105 eram casais.
Até ao ano de 1997, quando foi Casal Imperial o madeirense, natural de Boaventura, da Fajã de Penedo, Manoel Fidélio de Freitas e sua mulher, Neusa Claro de Freitas, toda a programação se concentrava na sexta, sábado e domingo. Englobava atividades socioculturais, com a apresentação de grupos folclóricos, corais e bandas musicais, barraquinhas espalhadas no adro da Igreja, almoço festivo, procissão do cortejo imperial e as cerimónias religiosas com a coroação da imagem da Nossa Senhora das Necessidades na missa de sábado à noite e a coroação do “Rei” e a divulgação do próximo Casal Imperial nas missas celebradas tanto no domingo de manhã, como à noite. Uma programação que primava pelo respeito pelas tradições açorianas, pelo louvor à Padroeira e pelo fervor ao Espírito Santo, como puderam testemunhar as autoridades do Governo Regional dos Açores e da Universidade dos Açores, presentes na festa do ano de 1996, ao participarem no Cortejo Imperial e na missa solene no entardecer de domingo.
A Festa do ano de 1998, tendo Armelindo Scoz no exercício da Provedoria da Irmandade e Gabriel Vaz Pires e Maria Bernadete de Campos Pires, como Casal Imperial trouxe alterações substanciais na sua realização, como o aumento do número de dias de festividade, além de uma inovadora e rica programação cultural baseada no resgate de usos e costumes da freguesia que faziam parte da memória coletiva, envolvendo de alguma forma todos os moradores na sua realização. Uma semana antes, terça-feira à noite, aconteceu a abertura oficial da festa com novena na Igreja Nossa Senhora das Necessidades em homenagem aos ex-Imperadores. Seguiram-se a apresentações de palestras sobre a festa do Divino, de danças folclóricas como o Pau-de-fita e Arco das Flores, Ratoeira e Balaio, procedeu-se à abertura das exposição fotográfica “Nossas Festas do Divino” e exposição de artes plásticas do artista Néri Andrade sobre a temática, além do lançamento do livro Histórias quase todas verdadeiras: 300 anos de Santo Antônio e Sambaqui, organizado por Sérgio Luiz Ferreira.
Na quinta-feira, à noite, foi aberto para a comunidade o Engenho de Farinha de Mandioca de Agenor de Andrade, no Caminho dos Açores, com a realização da novena, cantada no casarão da família, seguida da tradicional farinhada com distribuição de farinha, bejus e cuscuz e apresentação da cantoria do Divino, grupos musicais e folclóricos da comunidade. Foi uma noite memorável que trouxe gente de toda a parte da Ilha e do Continente e que marcou profundamente a festa do Divino de Santo António. Nos anos seguintes, a procura das suas raízes, o cultivo e a partilha das tradições mais legítimas da freguesia passaram a ser o grande diferencial da festividade.
As programações dos sábado e domingo continuaram a desenvolver-se de acordo com a tradição de há mais de duzentos anos.
No sábado, por volta das 18 horas, a Irmandade e o pároco, Pe. Aquilino António dos Santos, acompanhados pela Banda da Polícia Militar do Estado de Santa Catarina, foram buscar a Corte Imperial formada por adolescentes que pertencem à família do Casal Imperial, ou foram convidados entre os filhos das famílias do Distrito. Às 19 horas o Cortejo Imperial, integrado pela Corte Imperial, Provedor da Irmandade e convidados especiais, seguiu em direção à capela para participar na missa solene e coroação da imagem secular da Nossa Senhora das Necessidades. Trata-se de uma encenação muito bonita para homenagear a Mãe de Deus, Maria Santíssima, realizada por um grupo de meninas, vestidas de anjo, que cantam e coroam a imagem da Padroeira. Esta cerimónia foi introduzida em 1935, quando o pároco Pe. Bernardo Blasing, por desconhecer as tradições locais e por não aceitar os rituais da Festa do Divino, resolveu impedir a coroação do “menino-Rei”. Já que não se podia coroar o “menino-Rei” coroa-se a Nossa Senhora, decidiu o Imperador daquele ano. Os moradores não podiam concordar com a suspensão do costume secular da freguesia: a imposição solene da Coroa do Divino ao “menino-Rei”, porque era uma herança dos seus antepassados açorianos. Contudo, a comunidade aceitou bem a instituição da cerimónia de Coroação de Nossa das Necessidades e a mesma passou a integrar a ritualidade da Festa. Assim, na missa do sábado coroa-se a Padroeira e no domingo, na missa das 10h30, o menino-Rei é coroado pelo pároco.
No domingo, após a missa da coroação, o Casal Imperial e toda a Corte, tendo à frente o Rei e a Rainha, seguidos de damas e pajens, todos ricamente vestidos com trajes reais, são conduzidos para o Salão Paroquial, onde num local ornamentado com requinte de uma sala de trono, representando o antigo Império ou teatro, – pequena construção próxima da Igreja que abrigava as alfaias do Divino e que foi demolida em 1956, recebem os cumprimentos dos devotos que beijam a pombinha do Cetro de prata que está nas mãos da menina-rainha e beijam a Bandeira do Divino. Ao lado do Trono estão as massas de promessas moldadas em forma da parte do corpo que foram depositadas no altar da capela para serem abençoadas e que depois serão vendidas.
Neste salão é servido o almoço festivo de confraternização e de integração, vendido a baixo custo para oportunizar a participação dos moradores e visitantes nesse momento de convívio comunitário.
No final da tarde de domingo, mais uma vez, as porta-bandeiras abrem caminho para a passagem do Cortejo Imperial, acompanhados do Pároco e da Irmandade, sob os acordes da tradicional Banda Sociedade Musical Amor à Arte. Seguem para a Igreja onde assistirão à missa de encerramento da festa, à divulgação do novo Casal Imperial e dos juízes do próximo ano. A transmissão da Coroa do Divino, o Cetro e a Bandeira assinala a posse do Casal Imperial que presidirá às festividades do ano seguinte.
No adro da Igreja e nas ruas circundantes a festa popular continua com muita animação na grande barraca armada para as apresentações folclóricas e shows musicais e nas inúmeras barraquinhas que vendem comida, bebida e promovem sorteios de prendas e bingos noite dentro com grande participação da população.
A festa de 1998 foi um divisor na organização da festividade ao trazer à tona a sua história e os seus valores culturais partilhados com muito orgulho e influenciando de forma muito positiva a vida comunitária.
A história da família de Gabriel Vaz Pires, o atual Provedor da Irmandade do Divino Espírito Santo e de Nossa Senhora das Necessidades, que no ano de 1998 foi Imperador da festa, retrata bem esta teia de relações sociais e familiares que gravitam em torno da secular celebração.
Um olhar sobre a programação das Festas realizadas nos anos seguintes retrata a preocupação da Comissão Organizadora em revelar os valores culturais próprios da localidade, o desejo de revivificar costumes deixados para trás, como por exemplo, o desfile de carros de boi rangendo pelas ruas apertadas da freguesia e o sonho de reaproximar raízes separadas e revivificar elos longínquos no tempo e no espaço, partes da memória de um percurso secular.
Uma visita que ficou na história e no coração dos catarinenses e dos picarotos e fortaleceu os laços de amizade e de fraternidade entre os herdeiros de um mesmo legado histórico e cultural.
A programação de 2003, inaugurada a 23 de agosto com Novena e ladainha cantada em latim e acompanhada da Folia do Divino, foi efetuada na residência do Casal Imperador Machado da Silva e Marluce Martins da Silva.
A entrada da Bandeira do Divino na Missa de Bênção dos Juízes-festeiros, na noite de sexta-feira, dia 5 de setembro, fez transbordar sentimentos de devoção e fé ao Espírito Santo.
O átrio da Igreja foi pequeno para acolher, o grande número de pessoas que assistiu ao concerto da Sociedade Filarmónica União e Progresso Madalense, presidida por Paulo Rogério Ribeiro Goulart e sob a regência do Maestro Manuel Machado.
A comitiva açoriana acompanhou o cortejo Imperial, na noite de sábado, participando na missa solene e assistindo à cerimónia de coroação da Imagem de Nossa Senhora das Necessidades, encerrada com a tradicional queima de fogos de artifício.
Um foguete de vara estourou anunciando a saída do Cortejo Imperial de Santo António e a Procissão das Coroas da Ilha do Pico. Na frente, seguiam os irmãos da Irmandade do Divino Espírito Santo e de Nossa Senhora das Necessidades vestidos com opas de seda vermelha. Na sequência ritualística, vieram as jovens porta-bandeiras levando a Bandeira do Divino e abrindo caminho para a, Corte Imperial formada por um conjunto de damas e pajens, o menino-Rei e a menina-Rainha, que representaram D. Diniz e D. Isabel. Das suas costas pendiam majestosas capas de veludo, ornadas com arminho, tendo bordadas, ao centro, os símbolos do Espírito Santo. Vestiam trajes de época, luxuosos, ricamente confecionados e bordados, de grande beleza. Seguiam o Casal Imperial trazendo a Coroa e o Cetro. Dentro de um quadrado formado por quatro varas de madeira, seguro pelas mãos de senhoras açorianas, vinham o Pe. Marco Martinho, pároco da Madalena do Pico e, carregando a Coroa do Espírito Santo, dirigentes da Filarmónica. Logo, a seguir, o Provedor da Irmandade, o Pároco de Santo António de Lisboa, autoridades civis de Florianópolis e da Madalena, juízes-festeiros, convidados e as duas bandas musicais. Um momento ímpar, que uniu numa mesma tradição os rituais e os símbolos presentes no Culto do Divino de hoje, na Ilha do Pico, Açores, e na Ilha de Santa Catarina, no Brasil.
No momento da imposição solene da Coroa do Divino, o Pe. Aquilino coroou o Rei.
Atualmente, uma semana antes, terça-feira à noite, acontece a abertura oficial da festa com uma Novena na Igreja Nossa Senhora das Necessidades em homenagem aos ex-Imperadores, seguida de uma palestra sobre a festa do Divino e apresentação de danças folclóricas como o Pau-de-fita e Arco das flores, Ratoeira e Balaio, abertura de exposições com artistas da região e lançamento de livros. Na quinta-feira, ao cair da noite, no Engenho de Farinha de Mandioca da Agenor de Andrade, no Caminho dos Açores, realiza-se a última novena, cantada em latim, seguida da tradicional farinhada com distribuição de farinha, bijus e cuscuz e a apresentação de cantoria do Divino, grupos musicais e folclóricos. Uma noite animada que traz gente de toda parte da Ilha e do Continente. A busca das raízes, o cultivo e a partilha das tradições mais legítimas da freguesia passaram a ser o grande diferencial da festividade.
A programação do sábado e domingo respeita a tradição local, que se realiza há mais de duzentos anos.
No sábado, o Cortejo Imperial segue em direção à Capela para participar na Missa Solene e de coroação da imagem secular de Nossa Senhora das Necessidades e no domingo, na missa das 10H30, o menino-Rei é coroado pelo pároco. No final da tarde, mais uma vez, as porta-bandeiras abrem caminho para a passagem do Cortejo Imperial, acompanhados pelo pároco e da Irmandade, sob os acordes da tradicional Banda Sociedade Musical Amor à Arte e seguem para a igreja onde assistirão à Missa de encerramento da festa, à divulgação do novo Casal Imperial e dos juizes do próximo ano. A transmissão da Coroa do Divino, Cetro e Bandeira assinalam a posse do Casal Imperial que presidirá às festividades do próximo ano.










