Irmandade do Divino Espírito Santo de San José

Festa com 112 anos
País: EUA
Região: CALIFORNIA
Local: SAN JOSE
Morada: 1401 East Santa Clara Street San Jose, Califórnia, 95116 - Estados Unidos da América
E-mail: office.ies@gmail.com
Ano da Fundação: 1914
Fundador: 81, liderados por Monsenhor Henrique Augusto Ribeiro
Festa proposta por:
Nome: Tony Goulart

“Pelos tempos fora, o ilhéu foi buscando noutras paragens espaço, pão e justiça…. Na mente trazia a esperança de riquezas. Às costas a ilha. No coração o culto ao Divino Espírito Santo.”
É comummente atribuída a Isabel de Aragão, a rainha santa, que em 1288 casou com o rei D. Dinis, a introdução do culto ao Espírito Santo em Portugal, que inclui a solenidade da coroação do imperador, tendo sido chamada a nobreza e pessoas de diversas classes para nela tomarem parte. Ficava assim estabelecido que o culto à Terceira Pessoa da Trindade é um fenómeno religioso vinculado entre os portugueses há muitos séculos.
Descobertas as ilhas dos Açores, essa devoção, que ia no coração dos seus primeiros povoadores, desembarca das caravelas com os franciscanos e depois os jesuítas e, de pronto, se tornou numa tradição. O colono, na sua solidão e no sofrimento, virara-se para o Divino Espírito Santo para sua companhia e seu consolo. A tradição enraizou-se, e o açoriano tornou-se povo.
Os anos e os séculos foram passando. Um dia a notícia de “eldorados” chegou às ilhas e, de “salto”, embarcando nas baleeiras, sujeitando-se a longas e árduas viagens, os açorianos alcançaram os portos e as terras da Califórnia.
As histórias de encantar e embriaguez do sonho da fortuna provocou a chegada de muitos outros ilhêus. Foram-se multiplicando e povoaram vales. Sofreram e trabalharam muito, mas não acobardaram. Na crença no Divino Espírito Santo, os nossos antepassados encontraram companhia, alento e força para enfrentarem os ardores da vida. Em 1871 realiza-se a primeira festa em Half Moon Bay com uma coroa de latão trazida do Corvo por Rosa Pedro.
Os vales foram-se enchendo e as irmandades foram proliferando e promovendo celebrações de convívio e partilha. Era o traço de união entre gerações. Era o segredo da nossa coesão. Era a afirmação da nossa diferença. As capelas e os salões — as catedrais da “chamarrita” — foram-se erguendo de norte a sul do estado, ponteando o mapa da Califórnia em testemunho de um povo e da sua fé.
Em 1914, os portugueses do Leste de San José, também fundaram a sua Irmandade do Espírito Santo e construíram a capela (que também serviu temporariamente de igreja) e, mais tarde, o seu imponente salão. Nesses espaços, com o coração aberto, celebraram a sua fé partilhando “sopas” e carne. Aí bailaram alegremente a “chamarrita”. À sua sombra, desde há 100 anos, reuniram-se para celebrar e partilhar os sucessos das suas vidas.

Fundada em 1914, a Irmandade do Espírito Santo de San José da Califórnia tem como peculiaridade o fato de ter sido estabelecida por razões completamente estranhas e diferentes das demais associações congéneres. O seu fundador e impulsionador, o Rev. Monsenhor Augusto Ribeiro, natural dos Cedros do Faial, aponta nos estatutos originais como exclusiva finalidade da irmandade, a construção da Igreja Nacional Portuguesa das Cinco Chagas. Enquanto as demais associações se destinavam a reunir os seus “irmãos” para partilhar uma refeição em louvor ao Espírito Santo, a IES, estabelecida pelos mesmos 81 membros da comunidade portuguesa de San José e arredores, tinha surgido da astúcia de um padre que sabia que não poderia ir muito longe sem o apoio dos portugueses açorianos, que cultivavam uma devoção especial à Terceira Pessoa da Trindade. Usando o estratagema de oferecer o terreno para a construção das suas instalações, o Monsenhor assegurava assim uma fidelidade ao motivo ulterior da construção de uma nova e imponente igreja ao serviço da comunidade portuguesa do sul da baía de San Francisco.
O primeiro edifício a ser construído foi a Capela (Império) da Irmandade que, durante os 4 anos de angariação de fundos e construção da nova igreja, havia de servir de primeira igreja paroquial. A sua réplica serviu de modelo ao Museu Histórico Português instalado no San Jose History Park. A exiguidade do espaço levou à construção de uma sala de reuniões adjacente à Capela para reuniões de diversos grupos comunitários e dos “conselhos locais” das sociedades portuguesas de socorros mútuos e, a partir de 1917, a sala de ensaios da primeira filarmónica portuguesa da cidade de San José. A partitura do hino do Espírito Santo para primeiro clarinete tocado por essa filarmónica ainda existe.
Pode afirmar-se que, a fundação da Irmandade do Espírito Santo e paralelamente e um pouco mais tarde a construção da igreja nacional portuguesa de San José estão na base do estabelecimento de uma comunidade portuguesa no sul do vale de San Francisco, hoje conhecido pelo Silicon Valley. A primeira festa realizou-se a 28 de junho de 1914 nos terrenos da propriedade com um altar improvisado para a coroa.
A intensificação das atividades lúdicas, sociais, recreativas, culturais e religiosas viriam a ser aglutinadas por estes dois polos comunitários (Irmandade e Igreja). Nos anos 50 foi construída a sala de festas ou salão grande. Até então o segundo piso era utilizado frequentemente para representações teatrais. Através dos anos, tanto a capela como o salão sofreram melhoramentos e remodelações sucessivas para acomodar as necessidades da cidade que se havia de tornar na maior concentração de imigrantes Portugueses na Califórnia.
A IES, para além das suas tradicionais celebrações ao Espírito Santo trazidas pelos nossos pioneiros açorianos, continua a ser um polo de identificação e ponto de encontro e celebração comunitária.
Nas suas instalações, há quase um século se receberam entidades portuguesas, casaram os filhos dos emigrantes, partilharam-se os momentos mais efusivos em celebrações comunitárias e apoiaram-se as causas mais nobres nos momentos de tristeza, quando as nossas terras de origem eram fustigadas pelo infortúnio.
Em 1964-5 celebrou-se o cinquentenário da Irmandade com a devida solenidade. Era presidente da mesa Batista Vieira e a rainha desse ano foi Fátima Cunha. Durante as festividades houve a oportunidade da reunião das antigas rainhas da sociedade.
A festividade anual em honra do Espírito Santo tem o seu auge há 100 anos com a realização da procissão, desfile ou parada. De início e sobretudo enquanto o Monsenhor Ribeiro foi vivo, uma vez que não admirava os aspectos profanos das celebrações, conseguiu manter um certo cunho religioso a toda a celebração, que era “mais uma festa da paróquia”. As rainhas mantiveram trajos sóbrios e a religiosidade do evento era a nota marcante.
Com o passar dos anos, e também devido à emancipação económica da comunidade, os elementos profanos e as atividades lúdicas foram criando maior expressão, que tiveram muitas variantes conforme as décadas e as respectivas modas e costumes. As cantorias e os arraiais noturnos com baile e desfile de marchas foram outros elementos que foram adotados ao longo da história da I.E.S.
A parada ou desfile sai da sede da irmandade, percorre vários quarteirões de uma das avenidas principais de San Jose em direção à igreja nacional portuguesa das Cinco Chagas, onde se realiza a coroação da rainha e dos presidentes.
Recentemente e desde há algumas décadas, o cortejo é embelezado e enriquecido com a presença de muitas pessoas transportando açafates de rosquilhas à cabeça, uma tradição picoense levada a cabo pelo grupo “Tradição Açoriana”.
Em 1990, e graças ao entusiasmo de João Silveira, as rainhas do Espírito Santo da Califórnia tomaram parte na celebração do Dia dos Açores na Caparica, em Portugal. A rainha da IES, Melanie Rodrigues representou a nossa sociedade.
A rainha do Espírito Santo é um elemento típico das celebrações da Califórnia que tem a sua origem na adopção de elementos da cultura americana. A primeira rainha da IES, de quem possuímos imagens, data de 1915 e chamava-se Maria G. Fields (Fialho). Vestia um vestido curto e não ostentava capa. Em 1923, a sua prima, Emily Fields apresentava-se muito mais ostensivamente. Em 1943, Gertrude Cardoza, futura esposa de Alberto Soares posava em fotografia de estúdio com porte elegante. Apareciam por esta altura as rainhas pequenas para regojizo dos seus orgulhosos pais. No inicio dos anos 60, as rainhas do Esp. Santo trajavam, em geral,vestido e capa branca. Nos anos 70 as capas de cores variadas e tons fortes tornaram-se prática comum.
Em Agosto de 1992, a destruição causada por um incêndio colocava à prova a comunidade e a liderança da IES. As chamas devoravam e reduziam a cinzas o quase centenário edifício da IES.
As imagens da destruição eram desoladoras. Mas a coragem, a entreajuda e a determinação não faltaram e, em menos de um ano, o salão renascia para albergar de novo a celebração da festa do Esp. Santo de 1993. Mário Dias era então presidente do Portuguese Atlético Clube e Tony Fontes da IES. Os dois trabalharam incansavelmente com dezenas de voluntários para levar a obra até ao fim.
Em 2014, sob a presidência de Fátima Ávila, a IES celebrou o centenário da primeira festa em louvor ao Espírito Santo em San José da Califórnia. Simultaneamente e, para deixar um legado histórico da irmandade para as gerações vindouras, foi publicado um livro com a história da sociedade, “I.E.S. of San Jose: A century of Devotion to the Holy Spirit and Community Service”, da autoria da pesquisadora Maria Cunha Carty.

https://www.facebook.com/ies.portuguesehall


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