1 – Origens
O culto do Divino Espírito Santo na freguesia da Prainha terá tido, provavelmente, a sua origem como as demais irmandades; seguindo as pisadas dos primeiros povoadores e com elas a influência exercida pelos Franciscanos, que no Pico, tiveram uma presença de relevo, bastando para isso notar os três conventos existentes na ilha. Devido à cultura do verdelho na Ponta do Mistério, crê-se que a presença de um “mini convento” sito na Baía das Canas, poderá aferir da influência que estes tiveram, neste sítio e na vivência quotidiana destas gentes.
2 – Os Impérios
O Império existente nesta freguesia segue basicamente a estrutura que têm os demais impérios açorianos com uma particularidade: nos extremos da freguesia, neste caso Canto da Areia e Prainha de Cima, o império seria ou a moradia do mordomo ou algum espaço que se acordasse para esse fim e com condições para tal. Existem quatro Irmandades, tantas quantas as festividades celebradas segundo o calendário litúrgico: Domingo de Pentecostes, Segunda-feira e Terça-feira do Espírito Santo e, no domingo seguinte, dia da Santíssima Trindade. A segunda-feira era celebrada simultaneamente com pessoas que se deslocavam da Prainha de Cima ao Império para fazer a função, e no sítio propriamente dito. Hodiernamente, realiza-se simultaneamente nos sítios da Prainha de Cima e na Prainha de Baixo, esta última já em vias de desaparecer, o que foi um dos dias mais concorridos da Festa. Aliás, havia uma diferenciação social disfarçada, uma vez que no espírito de igualdade premente e identitário desta Festa, os mancebos do Domingo seriam as pessoas mais abastadas, da Segunda-feira os de médios recursos e da Terça-feira os mais pobres. Houve um ano que na ausência de Padre para a coroação, a festa correu de igual modo.
No sítio do Canto da Areia realiza-se, por tradição, o Domingo da Santíssima Trindade.
Os irmãos ou mancebos que compõem estas irmandades são regidos por um espírito de solidariedade e a “pertença” a uma outra irmandade advém de vínculos, laços de tradição familiar, confinados ao sítio a que pertencem. A este Império estava associada uma despensa, vulgarmente conhecida por “Casa dos Bolos” (entretanto demolida) onde se guardavam, além dos bolos, as loiças, as alfaias do império e em algumas ocasiões, serviu de local de ensaio da Filarmónica.
Nos sítios distantes da freguesia, já anteriormente mencionados, o culto realizava-se em torno de estruturas de madeira montadas especificamente para a ocasião que designavam por “tronos ou altarinhos do Espírito Santo”. No Canto da Areia, esperava-se a coroa num determinado sítio, a qual seguia depois em cortejo até à casa do Mordomo ou Mordomos. Hoje, a festa realiza-se, quer na Sociedade Filarmónica, quer no Salão Paroquial, quer no Centro Recreativo existente na freguesia,
3 – O Mordomo
Para cada celebração, os mancebos escolhem um irmão responsável que recebe a designação de Mordomo que se oferece para realizar a festa em resultado do cumprimento de promessa ou não. Sempre houve quem se voluntariasse. Apenas uma obrigatoriedade: a de contribuir na festa de cinco em cinco anos.
3.1 – A Mestra
Se ao mordomo cabia assumir a festa, à Mestra, senhora a quem era reconhecida a autoridade de orientar toda a logística ligada às sopas e massas que se iam fazer nessa festa, bem como os bolos de véspera. Primeiro, era a responsável por tomar o ponto às massas e ia pelas casas, em dias marcados, orientar os vários grupos de pessoas criados para cozer o pão; era, muitas vezes, a detentora dos chavões (moldes em madeira de bucho ou cedro para imprimir adornos nos bolos). Também era a responsável pelos enfeites e porções ajustadas a cada pessoa. O trabalho de confeção das vésperas iniciava-se na Quinta-feira da Ascensão e na quinta-feira antes do domingo de Pentecostes o de amassar o pão; primeiro a massa sovada e depois o pão de trigo. Durante este processo rezava-se o rosário e, eventualmente, alguma ladainha.
3.2 – As Vésperas
Havia-as de dois tipos: vulgo “bolacha” e o bolo “de borda”, moldado com uma folha de milho seca, devidamente preparada para o efeito. A “conta de bolos”- quantidade de vésperas que cada um irmão estava encarregue de contribuir, era de 5 dúzias, trinta bolos eram distribuídos e o restante arrematado e revertido a favor da festa.
4 – As Sopas
As sopas iniciavam-se no arear dos caldeirões de ferro com correntes e no fazer-lhes sombra, para não rançarem. Colocavam-se folhas de couve no fundo dos caldeirões e iniciava-se a feitura das sopas. Na madrugada de domingo preparavam-se o lume, fornos, viandas e demais ingredientes (cebola, alho, canela, Jamaica, um copo de vinho branco e um copo de molho da carne assada) a demolha do pão, previamente partido, em rústicas terrinas de louça. A carne assada era, igualmente, servida em travessas de louça e molheiras em separado, bem como o arroz doce, porém, só no domingo.
O vinho era ofertado por cada irmão, na medida das suas possibilidades, e era a única bebida servida, em garrafas, na festa.
Na sexta-feira enfeitava-se a Rês destinada à festa, percorrendo-se depois, em cortejo, alguns sítios pré-estabelecidos e, eventualmente, as casas dos mordomos, tudo isto era feito em ambiente de folia.
5 – Os Símbolos e o Cortejo
A coroa, o cetro e os estandartes são os símbolos mais importantes do Império, pelo que assumem um lugar de relevo em todo o culto. A coroa é de estilo imperial, em prata, de quatro braços, encimada por um orbe em prata dourada sobre o qual assenta uma cruz, igualmente em prata. Posteriormente, adquiriram-se mais três coroas de menores dimensões. O Império da Prainha de Cima tem duas coroas próprias. Cada uma é completada com um cetro em prata, encimado por uma pomba de asas estiradas. A coroa é decorada com um laço de fitas de seda vermelha e branca, o mesmo acontecendo com o cetro. A coroa é colocada sobre uma bandeja de pé alto, também em prata, a qual simboliza o Império do Divino Espírito Santo e o seu poder universal. Chegadas a casa dos Mordomos que iriam fazer a festa, as coroas, por vezes, eram alumiadas, ou seja, as pessoas com promessas, tinham as coroas em suas casas e mantinham-lhes uma chama a alumiar. Ocasionalmente, juntavam-se ao serão e rezavam o terço, principalmente na Quaresma. Após o Domingo de Pentecostes e o Domingo da Trindade havia “Funções” ou “Gastos” do Espírito Santo, inclusive existiam famílias inteiras ligadas a este aspeto da festa. Quando eram mais as promessas que os dias, procedia-se à extração das “Domingas”. Importa referir que, aquando da chegada das coroas à copeira, os anciãos da freguesia faziam uma espécie de ala, para receber as coroas.
Começa a ser comum fazerem-se cortejos durante o verão, normalmente associados a funções oferecidas por emigrantes em férias.
Os estandartes são confecionados em damasco vermelho vivo, normalmente de dupla face, de forma quadrangular, sobre o centro da qual é bordada em relevo uma pomba branca da qual irradiam para baixo raios de luz em branco. Estes são colocados numa haste de madeira com cerca de três metros de comprido, encimada por uma pomba em madeira. Os estandartes acompanham a coroa e estão sempre presentes nas cerimónias litúrgicas onde se coroa. Junto aos impérios é hábito existir um grande mastro no qual é içada durante as cerimónias uma grande bandeira de tecido branco com motivos alusivos ao culto. Geralmente, acompanha as urnas funerárias dos Irmãos que cumpriam sempre o pagamento das cotas da irmandade.
As varas são outro acessório claramente inspirado nas antigas varas municipais e dos juízes. As cerimónias e os cortejos são acompanhados por um número variável de varas de madeira polida pintadas de branco (em geral doze), com cerca de dois metros de comprido. Nos cortejos, as varas rodeiam as coroas, sendo seguradas por quatro participantes e colocadas de modo a formarem um quadrado em torno de cada coroa. Só eram admitidas crianças e homens, tanto na coroação como no cortejo, havendo uma escrupulosa regra de pureza em relação às mulheres. A estas estavam interditos certos procedimentos como, por exemplo, o tocar nas coroas. Hoje, as Irmandades são mistas e são livres de tais regras.
7 – A Coroação
A coroação é feita após o termo da missa e consiste na colocação, pelo sacerdote, da coroa na cabeça do mordomo ou das pessoas que ele designar e na imposição do cetro que é empunhado pelos coroados, após terem beijado a pomba que o encima. Os fieis assistem de pé à coroação e é cantado o Hino do Espírito Santo. Durante o Hino são enviados confeitos (sementes de funcho cobertas de açúcar) à coroa. Depois da coroação, inicia-se o cortejo, até ao sítio do bodo. A acompanhar este cortejo encontram-se os Foliões, há muito em desuso, sendo substituídos pelas Fanfarras iniciais e, posteriormente, pela Banda Filarmónica da freguesia.
8 – As Sopas
No 7º domingo após a Páscoa (dia de Pentecostes) realizam-se as sopas. Nesse dia, o cortejo depois de acompanhar os comensais, dirige-se ao império, sendo as coroas e os estandartes aí colocados em exposição. As vésperas são colocadas na “Casa dos Bolos” e depois de abençoadas, são distribuídas. Conta-se que, aquando da II Guerra Mundial, em tempo de racionamento, algumas ruas da freguesia tiveram que ser encerradas devido à afluência de gente de outros pontos da ilha em busca das ditas vésperas. A razão era a seguinte: o facto da freguesia da Prainha ser muito abundante em cereais (milho, trigo e inhames) e outros produtos de uso quotidiano.
Os irmãos recebem-nas e todas as pessoas que passam nas imediações. É costume também fazer-se uma esmola ao Padre, quer em carne, pão e vinho, quer em bolos de véspera. Terminado o bodo, as coroas recolhiam em cortejo à casa do mordomo na segunda-feira e assim sucessivamente.
9 – A Função
Hodiernamente, a “Função” ou “Gasto do Espírito Santo” é uma refeição ritual servida a um numeroso grupo de convidados por um dos mancebos, normalmente em resultado de um voto de promessa. A refeição consiste de “sopa do Espírito Santo”, carne assada e arroz doce polvilhado com canela, sendo acompanhada por vinho, água ou algum refrigerante. Nas mesas também se encontram, fruto de dádivas dos restantes mancebos da irmandade, “suspiros” (doçaria feita de açúcar e ovos), “beijinhos” (doce feito à base de gemas, coco e açúcar) e, eventualmente, “confeitos”. A acompanhar, pão e massa sovada.










