O antigo povoado de São Francisco de Paula de Canasvieiras nasceu em consequência da expansão demográfica das populações luso-açorianas na Ilha, sendo elevado à categoria de freguesia pela Lei Provincial n° 008 a 15 de abril de 1835. O atual Distrito de Canasvieiras possui uma área estimada em 29,30 km2. Integram o Distrito as praias de Canasvieiras, Pontal, Jurerê, Forte e as localidades de Vargem Pequena, Ponta Grossa, Lamin e a sede, Canasvieiras.
Na sede da freguesia foram iniciadas em 1830, por Eduardo Moreira, as obras da Igreja que teria por padroeiro São Francisco de Paula, uma construção que se prolongou por muitos anos. Ao seu redor, o casario singelo, de pedra e cal, e a casa do Império, onde se realizavam as Festas do Espírito Santo, com linha arquitetónica colonial, testemunham a presença dos muitos açorianos aí alojados e que deixaram o seu nome e as suas tradições ligadas à história do lugar.
A Festa repete-se, ano após ano e guarda nas suas manifestações a lembrança de um legado, de raízes profundas alinhavadas no tempo e vividas no coração desta comunidade praieira.
Em Canasvieiras, como nas demais comunidades do interior da Ilha de Santa Catarina, a Festa do Espírito Santo foi sempre popular; oportunidade de confraternização para todos os moradores que abriam as suas casas para receber os visitantes com muita alegria, comida, bebida e música. Junto da festança, eram doadas esmolas aos pobres da localidade pelo Imperador da festa e sua família, numa prática da caridade cristã, da fraternidade e igualdade. Reproduziam, na sua simplicidade, “os bodos”, a distribuição da comida entre os necessitados e a partilha do alimento entre todos os moradores que participassem do almoço no domingo da festa. Uma tradição açoriana que foi mantida em muitas freguesias catarinenses, como também em Canasvieiras, onde antigamente era uso o Imperador mandar abater na véspera da festa uma ou mais reses e, depois distribuí-Ias, em pequenas porções, aos pobres. Era costume, também, oferecer um faustoso banquete, para todos os moradores. Daí a razão de o Imperador ou festeiro ser uma pessoa abastada, de bom gosto e muita animação, para poder custear as despesas da festa e aguentar a intensa movimentação.
Os tempos são outros. A freguesia cresceu, expandiu-se a população, os costumes mudaram e tornou-se impossível manter algumas dessas tradições ancestrais.
A Festa do Divino Espírito Santo de Canasvieiras dos dias atuais segue o modelo das demais festas da Ilha. Ocorre no mês de julho, obedecendo ao calendário da Paróquia de Ingleses do Rio Vermelho, a que pertence, a fim de evitar a coincidência de datas com outras capelas da região. É organizada pelo festeiro em conjunto com o CAEP – Comissão de Assuntos Económicos Paroquial, da Irmandade de São Francisco de Paula e do Divino Espírito Santo e com a efetiva participação de toda comunidade.
Um mês antes da festa, começa o périplo da Bandeira do Divino que visita todas as casas da redondeza levada pelo festeiro, amigos e membros do CAEP. Não tem acompanhamento de folião ou de tambor. Apenas a Bandeira ou “o Santo” como chamam a pombinha que está no ápice do mastro e que simboliza a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. A família recebe a Bandeira na porta da casa, levando-a para percorrer todos os aposentos, pedindo as bênçãos do Divino. Na visita, é feita uma oração e entoado um canto em louvor ao Espírito Santo. À saída é entregue a oferta em dinheiro, colocado dentro da coroa. Se tiver havido promessa, esta será paga em forma de fitas de cetim coloridas que são penduradas no mastro da Bandeira. Também se pagam com as tradicionais “Massa de Promessa” que serão leiloadas ou vendidas.
Na semana que antecede a festa são rezadas novenas e, na sexta-feira, começa a programação dos festejos com quermesse, sorteios, leilões, apresentações folclóricas, espetáculos musicais e muita comida e bebida em barracas armadas no pátio da capela. Uma grande festa popular que, no passado como no presente, requer muita animação e, ainda, propicia os namoros, os romances, que florescem animados pelo leiloeiro e pelo arremate de uma prenda oferecida à eleita ou pretendente.
Na sexta-feira e no sábado o ritual é igual.
A Banda Musical, tendo à frente a Irmandade com a sua opa vermelha e as porta-bandeiras, vai buscar o Casal Festeiro, a Corte Imperial, vestida a caráter, e convidados para assistirem à missa na Capela São Francisco de Paula. A antiga denominação de “juízes e mordomos” foi aqui substituída por “padrinhos”, e a missa da sexta-feira é celebrada em sua homenagem.
Domingo é o grande dia. Desde cedo, o movimento é intenso com a abertura das barracas e o rebentar de foguetes anunciando a chegada do cortejo imperial, que repete o trajeto da sexta-feira e do sábado. No átrio da capela, populares em trajes domingueiros aguardam a procissão que traz à sua frente as porta-bandeiras, os Irmãos engalanados, seguidos do Imperador, Imperatriz e sua corte, do Casal Festeiro que leva a coroa e o cetro, das autoridades e convidados e, por último, da tradicional Banda Musical. Na manhã de domingo tem lugar a missa solene, cantada pelo Coral São Francisco de Paula, em louvor do Divino, oficiada pelo pároco. Durante a celebração há a cerimónia de coroação do jovem Imperador pelas mãos do Festeiro. Após o término da missa, segundo o costume local, o Casal Festeiro, o Imperador e toda a Corte são conduzidos ao Salão Paroquial, onde será servido o Almoço Comunitário, a preços simbólicos, para motivar a participação popular e manter o costume de partilha do alimento, de confraternização.
No pátio da secular Igreja São Francisco de Paula a programação continua com os festejos populares e muitas atrações artísticas acontecem no decorrer do dia. Ao cair da tarde, aos sons dos sinos e do foguetório o cortejo retorna com grande pompa à Igreja, onde será celebrada a missa de encerramento da festa. Na ocasião o Casal Festeiro anuncia o Festeiro para o ano seguinte. Após ter seu nome proclamado, o novo Festeiro recebe a coroa, o cetro e a salva e assume o compromisso de fazer a Festa do Divino e manter viva a tradição. Uma tradição que foi interrompida por cinco anos e que, graças a dona Alda Teonília Sardá da Costa, foi retomada em 2001.





