Em Viana, a Festa do Divino Espírito Santo é realizada anualmente na semana anterior ao domingo de Pentecostes, em comemoração à vinda do Espírito Santo sobre os apóstolos de Jesus Cristo. é mesclada de rituais de louvor e outras homenagens ao Espírito Santo. A Festa em Viana apresenta-se como uma tradição religiosa de alcance popular, constituindo-se como um complexo celebrativo que se desenrola cinquenta dias após a Páscoa.
Nos seus aspectos culturais materiais e imateriais, seus elementos e suas funções, a Festa do Divino Espírito Santo, em Viana, apresenta-se como a única manifestação religiosa e cultural remanescente dos imigrantes açorianos, que teve a sua primeira edição em julho de 1817, conforme relata BALESTRERO, historiador de Viana, no seu livro Subsídios para o Estudo da Geografia e da História do Município de Viana:
“as Festas do Espírito Santo eram as mais importantes que se vinham mantendo com a mesma tradição desde 7 de julho de 1817 até 1950, quando a mesma foi quebrada pelo atual vigário, Padre Venâncio Toller” (1951, p. 79).
Felizmente, a interrupção não foi longa, sendo a festa restabelecida no ano de 1953. Segue o trecho do relato da primeira festa, registado por BALESTRERO (apud NEVES, 2008, p. 53)
A primeira festa realizada na Igreja, depois de sua inauguração, foi a do Espírito Santo, a 7 de julho de 1817, da qual foi oficiante frei Carlos das Mercês Demichellis, capelão do Convento de São Francisco de Vitória, e festeiro Antônio de Freitas Lira, natural deste Estado, casado com D. Luiza Aurélia da Conceição, ilhoa de nascimento, troncos da numerosa família Lira, ainda radicada no município. De todas as festas que se realizavam na Paróquia, em tempos idos, a do Espírito Santo era a mais pomposa, pela sua originalidade.
Atualmente, a festa do Divino Espírito Santo na cidade de Viana, ainda se reveste de fundamental singularidade para a cultura, a religiosidade e a memória dos habitantes. Preserva, até hoje, a sua essência primordial de festa de origem medieval, mesclada de rituais sagrados e profanos. A programação oficial inicia no domingo anterior ao de Pentecostes, logo após a missa matinal, com a procissão e o hasteamento das bandeiras dos sete dons do divino espírito santo (inteligência, ciência, sabedoria, conselho, piedade, força e temor de Deus) nas sete casas previamente selecionadas pelo Imperador e pela Imperatriz. Da sexta-feira seguinte ao domingo de Pentecostes a festa é realizada com procissões, rezas de terços, missas, quermesse, atrações culturais, almoço comunitário, leilão e sorteio de brindes. No final da programação profana do último dia de festejos são sorteados os imperadores que irão organizar a festa do próximo ano, sendo que na missa do domingo seguinte ao de Pentecostes, os imperadores entregam os símbolos para o novo casal sorteado, de forma que, em momento solene, a nova imperatriz recebe a coroa com o cetro e o novo imperador o mastro com a pomba do Divino.
Algumas ressignificações foram inevitáveis no sentido de viabilizar a continuidade dessa tradição, que se perpetua ao longo de todos esses anos, desde o início do século XIX na cidade de Viana. A existência da festa do Divino Espírito Santo na cidade de Viana, expressão da tradição cultural e religiosa dos açorianos que aqui se instalaram, representa a resistência da tradição frente à contemporaneidade, como meio de preservação da memória e da tentativa de garantir a sua continuidade para as futuras gerações.
Os rituais dessa festa apresentam-se como um momento de interação social movido pela relação com o Divino, assim como em outras localidades onde se realizam festas em homenagem ao Espírito Santo, possibilitando o estabelecimento de vínculos entre os homens e uma dimensão espiritual, cosmológica. O caráter comunicativo impresso ao ritual deve-se à sua dimensão simbólica, onde as pessoas assumem encargos, desempenhando diversos papéis e desde então os objetos de culto tornam-se sagrados para aquela celebração específica. Como em outras festas devocionais de grande porte, ela instaura transformações na sociedade local e na vida pessoal dos participantes.
Considerada uma festa religiosa e popular, começa a ser preparada cerca de um ano antes da sua realização. Os seus rituais duram aproximadamente uma semana, onde no final, são sorteados os novos imperadores que serão os responsáveis pela organização da festa no ano seguinte. Além das manifestações imateriais, também são cultuados diversos símbolos atribuídos ao Divino Espírito Santo, como por exemplo: a pomba, a coroa, o mastro, as bandeiras, as cores, entre outros. Símbolos estes que evocam as questões religiosas da festa e que de certa forma exercem um papel de imagem sacra, carregadas de atributos ritualísticos e simbologias diversas.
A Festa do Divino Espírito Santo é uma festa móvel e a sua data de realização varia conforme a combinação dos ciclos solar e lunar, acontecendo normalmente entre os meses de maio e junho. Reúne na sua celebração diferentes sons, seja nos rituais do culto católico, com os sons cantados durante a reza do terço nas casas selecionadas, nas procissões e na missa, seja na parte cultural da festa, onde bandas musicais de estilo popular se apresentam para animar os participantes. A Banda Lira Euterpe Vianense, criada na década de 1960, durante muitos anos considerada a banda oficial do município de Viana, apresentava-se sempre nas festas de antigamente. Atualmente, está ocorrendo uma busca pelo retorno às tradições e, desta forma, a Banda voltou a apresentar-se durante as festividades realizadas nos últimos três anos.
O Imperador e a Imperatriz são os responsáveis diretos pela preparação e realização dos festejos, angariando donativos e também dinheiro para as despesas da festa. Recebem auxílio dos seus familiares, dos membros da igreja, das autoridades locais e de alguns moradores, principalmente aqueles ligados à religião católica. O prestígio emana exatamente da capacidade dos imperadores de acumularem os bens para depois os redistribuir. Aqui são incluídos os bens materiais e também os imateriais, tais como o recrutamento de pessoas para trabalho voluntário. O casal de imperadores apresenta-se sempre de forma muito bem arrumada e alguns chegam a eleger a cor vermelha como destaque no seu vestuário como forma de homenagear o Divino.
As cerimónias litúrgicas associadas à celebração do Divino Espírito Santo iniciam-se geralmente duas semanas antes do Domingo de Pentecostes, com a missa de envio dos Imperadores, onde os mesmos recebem em suas mãos os símbolos máximos da Festa: a Coroa e a Pomba do Divino. Logo após a missa é iniciada a procissão das bandeiras, que oficialmente abre os festejos do Divino Espírito Santo em Viana. A procissão das bandeiras foi iniciada no ano de 2009 pela equipe da organização da festa no sentido de incrementar os rituais. Na procissão são distribuídas as bandeiras dos sete dons do Espírito Santo nas casas escolhidas previamente, em comum acordo entre o Imperador e a Imperatriz. As bandeiras são de tecido vermelho, com pinturas brancas em formato de pomba com a inscrição de um dom em cada uma delas (sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus). As bandeiras permanecem nas casas das famílias selecionadas pelo tempo da festa, sendo retiradas durante a procissão do Imperador ou da Imperatriz, aonde um representante de cada família vai até ao altar da Igreja para a devolução da bandeira que ficou sob a sua guarda.
No final da semana do domingo de Pentecostes, a festa assume novas proporções, onde encontramos o ponto máximo do processo ritual e os ritos de maior carga simbólica da festa: as procissões, as missas, o sorteio dos novos imperadores. Em tempos anteriores a mobilização da cidade costumava ser completa e os mais diversos segmentos da comunidade local interagiam em torno desta importante tradição religiosa e cultural. Os habitantes da zona rural geralmente hospedavam-se em casa de parentes ou até mesmo mantinham um imóvel na sede da cidade especificamente para este fim. A festa do Divino apresentava-se como um dos principais momentos de lazer e de socialização do ano, geralmente escassos na vida cotidiana da zona rural.
Na véspera do Pentecostes – o Sábado do Divino – o Imperador sai da Igreja Matriz acompanhado com outros fiéis, que caminham em duas fileiras cantando e rezando, para buscar a Imperatriz na sua residência. Ao chegar lá, a Imperatriz posiciona-se com a Coroa nas suas mãos, juntamente com o Imperador que carrega o mastro com a pomba do Divino, enfeitado com fitas de cetim coloridas que, por sua vez, representam as línguas de fogo. Os Imperadores com as insígnias do Divino e as demais pessoas dirigem-se novamente à igreja entoando cânticos e orações ao Divino Espírito Santo e, ao chegarem à igreja, é iniciada a missa. Na Igreja Matriz, durante essa Festa, o Imperador e a Imperatriz têm um local de destaque para participar na missa, bem como recebem antes dos outros fiéis a comunhão das mãos do padre. Após o término da missa, as barraquinhas para a comercialização de alimentos, bebidas, artesanato e jogos (roleta, pescaria, ação entre amigos) são abertas ao público e começam as atrações culturais no palco instalado no pátio externo.
No “Domingo do Divino” é onde a festa atinge seu clímax. As atividades rituais iniciam-se bem cedo. Todos se reúnem novamente em frente à igreja Matriz para seguirem junto com a Imperatriz em cortejo até à casa do Imperador. Ao chegar à residência do imperador, novamente são realizadas orações e o casal posiciona-se à frente da procissão, carregando as insígnias, conduzindo a população novamente à igreja para participarem na Missa do Imperador. Ao chegarem, inicia-se a celebração da missa de Pentecostes que precede a tarde festiva onde será servido o almoço comunitário (vendido a preço popular), seguido de shows musicais, leilão e bingo. A festa dura até ao anoitecer, quando são sorteados os novos Imperadores que irão conduzir os festejos do próximo ano.
O culto ao Divino Espírito Santo é realizado como forma de agradecimento das graças advindas da Divindade. Trata-se de uma festa que reúne as pessoas sejam elas familiares, vizinhos, parentes ou amigos, que celebram o Divino através da fé, da fartura e da oração. Quem participa da festa, acredita que irá receber as bênçãos do Divino, pois trata-se de uma festa solidária, onde a acumulação só é permitida para a redistribuição. Nesse contexto são realizadas as trocas simbólicas entre o Divino Espírito Santo e seus devotos. A devoção ao Divino e a sua celebração marcam intensamente a sociabilidade local, estruturando as relações representativas e identitárias da comunidade em que está inserida. É uma festa onde se festeja a unidade e a coletividade, convivendo pacificamente com as suas diferenças e seus conflitos. Embora em cada ano existam transformações na realização da festa do Divino em Viana, a principal estrutura ritualística, em linhas gerais, mantém-se a mesma, bem como os seus mecanismos sociais de configuração, onde existe a articulação entre a Igreja, o poder público e as famílias locais.
Na Festa do Divino de Viana, os homens e mulheres têm a mesma importância durante a preparação, bem como durante a execução dos rituais. Um conjunto de eventos compõe a Festa do Divino Espírito Santo, marcando um tempo cíclico, que se articula anualmente, criando intensos movimentos de ressignificação do passado e do presente. Dessa forma, a festa nunca tem fim, já que, a partir do sorteio dos novos imperadores, no Domingo de Pentecostes, já são iniciados os preparativos para a festa do ano seguinte. Até à realização da festa do ano seguinte, em nome da devoção, serão produzidos bens materiais e simbólicos e os mesmos serão considerados como dádivas do festejo. Mesmo assim, existe um período de quietude entre o término de uma festa e o início (propriamente dito) da outra. Os principais lugares da festa são as casas, a igreja e as ruas. Durante os festejos, esses lugares servem como cenário e têm por consequência a inversão temporária de seu uso quotidiano para colaborar com a construção atmosférica da festa.
Mesmo sendo sorteados com um ano de antecedência, os organizadores da Festa só começam a planear efetivamente os festejos, nos quatro meses que antecedem a festa propriamente dita. Após decidirem a programação, eles saem em busca de recursos para custear o evento. As formas de angariar dinheiro geralmente são: assinatura do livro de ouro, venda de rifas, solicitação de doação de animais para o leilão e brindes.
Além das manifestações imateriais, que são os encargos ou “papéis” a serem desempenhados durante o preparo e a realização da festa (imperador e imperatriz), são cultuados diversos símbolos atribuídos ao Divino Espírito Santo, como por exemplo: a pomba, a coroa, o mastro, as bandeiras, os trajes, as cores, entre outros. Símbolos estes que evocam as questões religiosas da festa e que de certa forma exercem um papel de imagem sacra, carregados de atributos estéticos e simbologias diversas.
O circuito de devoção existente na festa do Divino em Viana é móvel, a começar pela escala temporal, respeitando o calendário cristão, de acordo com a data de Pentecostes, bem como o espaço abarcado pela festa é mutável, oscilando entre três principais pontos: a igreja, a casa do Imperador e a casa da Imperatriz, sendo diferente a cada ano, em função de onde estejam localizadas as casas dos festeiros.
A rede de rituais, as relações sociais e as representações dão forma anualmente aos festejos do Divino Espírito Santo, considerada a tradição religiosa de maior destaque na cidade de Viana, realizada há mais de 190 anos, o que confirma a sua importância como património cultural da cidade de Viana, sendo de extrema relevância a preocupação com as medidas de salvaguarda necessárias à sua preservação
http://www.aves.org.br/paroquias,7,60,paroquia_nossa_senhora_da_conceicao_-_viana.html





