Irmandade do Divino Espírito Santo do Norte Pequeno

Festa com 122 anos
País: Portugal
Região: Açores
Local: São Jorge
Concelho: Calheta (S. Jorge)
Freguesia: Norte Pequeno
Morada: Largo da Igreja Norte Pequeno 9850 - Calheta São Jorge
Telefone: 295417483 (Sr. Urbano Bettencourt)
E-mail: adg@cm-calheta.pt
Ano da Fundação: 1899
Festa proposta por:
Nome: Município de Calheta
E-mail: adg@cm-calheta.pt

“A Irmandade do Divino Espírito Santo no Norte Pequeno foi fundada a 6 de Maio de 1899, por vinte e quatro irmãos. Atualmente, são nomeados três irmãos para a sua direção num período de três anos. São funções dessa irmandade assumir a responsabilidade dos gastos do Espírito Santo e Trindade, caso ninguém se candidate a assumir os mesmos. Os bolos de véspera, vinho e queijo servidos nos arraiais também são da responsabilidade da irmandade, cujas receitas resumem-se às quotas anuais das famílias da freguesia e de ofertas de benfeitores.

No Domingo anterior à festa, dá-se início ao terço diário, que é rezado todas as noites até ao dia da Festa. No final do terço, distribuem-se rosquilhas de massa e biscoitos pelos presentes. O terço é oferecido por uma pessoa a quem o mordomo pede para tal. A pessoa a quem oferece o terço tem direito a um biscoito em vez da rosquilha.
Antigamente, os terços eram sempre cantados. Hoje em dia, só no último dia é que se costumam cantar alguns cânticos próprios da ocasião. São cânticos entoados sem música.

No Domingo de Pentecostes, existe um único mordomo que, no ano anterior, aceitou ficar com a coroa em sua casa para, no ano seguinte, cumprir a sua promessa. Este mordomo vai arcar com todos os encargos que daí advêm. É caso para dizer que, em regra, o terço é rezado em casa do mordomo com familiares e convidados todos os domingos do ano, até à semana da Festa, sendo este costume único neste Concelho.

No Domingo da Trindade, são 10 os mordomos que têm a seu cargo esta Festa, daí dizer-se, vulgarmente, que se vai “pegar” numa “sorte dos dez”, formando-se, assim, a Sociedade dos Dez. Estas “sortes” são tiradas no Domingo da Trindade do ano anterior, resultado do nome das 10 insígnias que vão na coroa. Este sorteio é realizado na Casa da Irmandade do Divino Espírito Santo, a que, vulgarmente, se chama de “casinha” onde foram “arrolados” os sócios. A quem lhe sair o sorteio da coroa, será o imperador, que acolhe a coroa em sua casa, e ficará responsável pelos preparativos da festa, depois de realizada uma reunião, com todos os sócios, para chegarem a consenso sobre os mesmos preparativos. Aos detentores da sorte do espadinho e das varas delgadas, compete a distribuição do doce branco, na tarde da festa. No Domingo de Espírito Santo cabe aos portadores da bandeira e das varas delgadas esta função. A quem leva o Prato é-lhe atribuído o título de trinchante, que no império prepara os pratos do doce para distribuição, guarnecidos com a pomba, a rosquilha, a cavaca, (doce branco), a espécie e o pão leve. O doce branco, antigamente, era feito em “casa” a partir de uma massa que é cozida de forma a ficar bem seca para “aceitar” a calda de açúcar que lhe é aplicada e ficar “alvo de neve”. Este processo de secagem é lento e trabalhoso, pois as peças de doce são colocadas cuidadosamente em cestos, envoltas em panos brancos, de forma a ser absorvida a humidade da calda.
Sobre o doce branco, conta-se uma história verdadeira, que se passou por altura da II Guerra Mundial, por volta do ano 1943, e da qual ainda se lembram algumas pessoas. Era mordomo o Sr. José Brasil e conta-se, então, que em virtude do racionamento de açúcar que existia devido à guerra, o mordomo, apesar de contrariado, decidiu não fazer o doce branco. Entretanto, por esses dias, ao colherem camélias para enfeitar o altar do Divino Espírito Santo, encontraram nas árvores umas esfinges, nunca antes vistas, de cor esbranquiçada, em forma de animais. Foram colhidas e colocadas no altar. Na hora do terço todos ficaram espantados e impressionados por estas “figuras”. Tocado pelo sucedido, o mordomo assumiu que era um sinal do Divino Espírito Santo, motivado pela sua decisão de não se fazer o doce branco. Reuniu os jovens da Freguesia e no dia seguinte foram à Calheta, perante o Administrador do Concelho, Dr. José Correia da Cunha, que tinha a seu cargo a distribuição das senhas para o açúcar. Ao ver a “enchente” de homens que o procuravam e após saber o motivo para tal, mandou entregar uma saca de açúcar para a execução do doce branco.

Voltando aos preparativos para a festa, a maior azáfama começa na sexta-feira, dia da festa do gado. Da parte da manhã, enfeitam-se as vacas destinadas para esse fim, com fitas coloridas e, por vezes, coroas de papel. Os animais abrem o cortejo pela freguesia, seguindo-se os tocadores e cantadores e o grupo de pessoas que os acompanham. Normalmente, os foguetes também faziam parte da animação. Quando havia escola na Freguesia, as crianças eram sempre convidadas para a festa do gado, sendo os primeiros a almoçar após a chegada do cortejo.
No Sábado, dá-se início à desmancha dos animais, separando-se a carne das esmolas, da carne a utilizar no almoço do Domingo. As esmolas são benzidas a seguir a uma missa e coroação, para serem oferecidas a cada família da freguesia e a quem mais os mordomos entenderem. Além de uma “posta” de carne, é oferecido também um pão e, por vezes, uma garrafa de vinho. Depois de concluída a distribuição, é servido o almoço aos ajudantes e convidados, onde da ementa constam normalmente a tradicional molha de carne, mão de vaca e fígado, provenientes dos animais abatidos na véspera. Durante este dia, também são confecionadas as papas de arroz doce e a carne assada, que será servida no almoço do dia seguinte e no império, durante a tarde às pessoas que vão passando pela Freguesia.

No Domingo do Espírito Santo e da Trindade, as coroações saem de casa do mordomo ou do império, em cortejo até à igreja, acompanhadas pela filarmónica. Depois da missa o cortejo segue para a casa da Irmandade do Divino Espírito Santo, onde o Padre faz a bênção dos bolos de véspera que serão distribuídos à tarde. Logo de seguida, há o almoço no salão paroquial, onde são servidas as tradicionais sopas do Espírito Santo.
Ao início da tarde, faz-se, então, a distribuição do doce branco na “praça”, a todas as famílias da freguesia, enquanto, ao mesmo tempo, se serve o arroz doce, massa sovada e carne, no império, a todos quantos se juntam à festa. Este arraial, por vezes, é animado por tocadores e cantadores e sempre com a presença da filarmónica da freguesia. Em simultâneo, as pessoas são convidadas a ir à casa da Irmandade comer bolo de véspera, queijo e beber vinho.
Ao anoitecer, a coroa volta para a igreja, pela mão do mordomo da festa. Aí faz-se uma pequena oração, e o mordomo do ano seguinte recebe a coroa, para continuar este ciclo de manifestação de fé e de partilha.
Importa ainda salientar que esta é a única freguesia do Concelho em que, por vezes, o mordomo estipulado para o ano seguinte, quando recebe a coroa do Divino Espírito Santo, faz de imediato o altar para colocação da mesma e o terço é rezado todos os Domingos do ano, até à semana anterior ao Dia de Pentecostes.
Assim, termina mais um ciclo anual das festas que fazem parte da alma dos açorianos, e onde todos se esforçam para prestar uma digna homenagem à divindade, com o gosto em reviver as nobres tradições herdadas da família e da comunidade.” (a)

(a) Texto da autoria de Clímaco Ferreira da Cunha


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