Irmandade do Divino Espírito Santo do Loural

Festa com 116 anos
País: Portugal
Região: Açores
Local: São Jorge
Concelho: Calheta (S. Jorge)
Freguesia: Ribeira Seca
Morada: Largo da Igreja Portal Ribeira Seca 9850 - Calheta
Telefone: 296416446
E-mail: adg@cm-calheta.pt
Ano da Fundação: 1901
Festa proposta por:
Nome: Município de Calheta
E-mail: adg@cm-calheta.pt

“Os Lourais são uma pequena localidade, um curato da freguesia da Ribeira Seca, que fica situado no alto da serra, no cimo da falésia virado a sul com uma altitude que vai dos 400 aos 600 metros.

A sua Ermida foi inaugurada em 1855 e é dedicada a Nossa Senhora do Livramento, sendo a sua festa anual no último Domingo de Agosto de cada ano. Esta festa, no passado, era acompanhada por uma importante feira de gado que, hoje, deixou de existir.

No século passado, teve escola primária, mercearia, queijaria, posto de correio, casa dos bolos e império. Os seus habitantes (cerca de 300 pessoas) aí viviam e trabalhavam na Primavera, Verão e Outono, fazendo como em várias localidades da ilha, “as mudas” durante o inverno, neste caso para as Fajãs dos Bodes, Ginjal e Barreiras.

Presentemente, tem uma bela estrada de acesso, à já referida Ermida, um novo império, casa dos bolos e centro recreativo, tendo, no entanto, perdido a maior parte da sua população que, hoje, ronda as 30 pessoas.

Nos Lourais, desde que há memória, sempre celebraram as festas do Divino Espírito Santo, havendo uma organização denominada por “Irmãos”, que era e é composta por dezasseis membros, tocando a cada dois (um para a festa do Espirito Santo e outro para a Trindade) dar o que designam de “gasto”, cabendo a cada um cumprir essa missão de oito em oito anos. De notar que esta tradição ainda se mantém, mesmo com a maior parte das casas vazias por morte ou emigração dos donos, mas as famílias, mesmo morando noutros sítios ou emigrados, mantêm com muito entusiasmo a “crença e tradição” dos seus pais e avós.

No passado, como havia poucos recursos, os mordomos começavam a preparação da festa um ano antes. Principiavam com a separação do gado para a engorda, na época das vindimas reservavam o melhor vinho, iam para as pastagens apanhar junco com o qual, depois de tratado, faziam as “esteiras” (tipo carpetes) que iriam servir de moeda de troca com o trigo que seria usado para fazer o pão para as sopas, esmolas e “pão do império”.

Na semana que antecedia a festa, o mordomo levava a coroa da Ermida para a sua casa, colocava-a num altar que havia construído antes, decorado com velas e flores no jardim. No final de todas as tardes, durante a semana cantavam o terço. Havia uma pessoa designada e encarregada de dirigir esses cantos e “oferecer o terço”. No sábado, brindavam os participantes com vinho, aguardente e uma rosquilha lêveda.

Durante o dia, e por toda a semana, as tarefas prosseguiam com grande azáfama, pois era preciso fazer o doce branco, o pão para as sopas, para as esmolas e para o império. Tudo isto era feito num ambiente de festa, alegria e boa disposição, fazendo-se as refeições na casa do mordomo para todos quantos estavam a ajudar.

Na sexta-feira de manhã, ia-se buscar o vinho às Fajãs que vinha em cortejo nos carros de bois enfeitados e acompanhados de tocadores e foguetes e era entregue na casa do mordomo, em ambiente de festa. Á tarde, e junto à casa do mordomo, eram mortas as vacas e com essa carne faziam-se as tradicionais sopas e esmolas. No sábado de manhã, procedia-se à distribuição das esmolas pelos mais necessitados e por todos os irmãos, sendo entregue a estes a melhor posta de carne e um pão grande.

Durante a semana anterior à festa, cada casa do lugar cozia os bolos de véspera que entregavam na casa dos bolos, à medida de um bolo por cada membro da família.

A casa dos bolos ficava aberta todo o dia de domingo, com vinho, bolo e queijo para brindar todos os visitantes, incluindo alguns de São Tomé e Santo Antão que vinham em romaria no fim da tarde para receber um bolo.

O vinho para a casa dos bolos era um contributo de toda a população, que era entregue numa adega a combinar, onde havia um barril que pertencia à casa dos bolos. Assim, era servido vinho da mesma qualidade, uma vez que as pessoas entregavam o seu vinho ao dono da adega e este trocava a quantia global recebida por outra equivalente do seu vinho.

No Domingo, antes da missa, fazia-se um cortejo com a coroa e insígnias, da casa do mordomo para o adro da Ermida, com todos os convidados e acompanhados de foliões.

A seguir à cerimónia da eucaristia e da coroação, eram servidas, na casa do mordomo, as tradicionais sopas do Espirito Santo e carne assada com pão doce, sempre regado com o bom vinho.

Durante a tarde havia o cortejo do doce branco, acompanhado de foliões, cantadores, tocadores de viola e bailes de roda. Tudo isto acontecia no adro da Ermida.

Cabia e cabe aos “cavaleiros” que eram compostos por três elementos, a tarefa da distribuição do doce branco e lá iam eles trajados a rigor com dois pratos de doce, entregar aos irmãos e a quem o mordomo mandava.

No império, estava exposto, por norma, quatro grandes pães a que chamavam “pão do império”. Este pão era cortado em fatias grossas e, no final do arraial, distribuídas pelas crianças e pelos irmãos. Após a distribuição da “fatia”, a coroa seguia em cortejo do Império para a Ermida, transportada pelo mordomo do ano seguinte. Esta situação acontecia nos Domingos de Espírito Santo e Trindade.

Finda a festa deste último Domingo, a coroa ficava na Ermida, onde permanecia até às festas do ano seguinte, tradição que se continua a manter.

Presentemente, dada a falta de residentes e havendo uma melhor situação financeira, tudo se tornou diferente. No passado, davam sopas e esmolas só a alguns habitantes do lugar. Hoje, são convidadas pessoas de outros lugares e freguesias, dando origem a que, mesmo com menos residentes, se matem mais vacas para esse fim. Quando as festas são de emigrantes, as vacas são compradas  na ocasião, os bolos são encomendados e confecionados em padarias e o vinho é adquirido no exterior. Também se passou a apresentar no ato das sopas que são servidas no Centro Recreativo, o arroz doce que, neste lugar, não era tradição. Em relação aos foliões, estes já deixaram de existir, mantendo-se ainda a tradição dos “cavaleiros”.

Quando as festas são de pessoas que ainda vivem no lugar, por norma, três anos antes, começam a criar e a tratar das bezerras que vão ser abatidas na altura destas festividades.

Fica a ideia de que com a crença, devoção e boa vontade dos Louralenses, tarde ou nunca serão extintas estas festividades tão arreigadas neste povo que, esteja onde estiver, não esquece o lugar dos seus pais e avós, passando uma bonita imagem aos seus vindouros”. (a)

 

(a)       Texto de autoria de Clímaco Ferreira da Cunha

https://www.youtube.com/watch?v=5DJt2tBA13Y


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