Irmandade do Divino Espírito Santo da Fajã dos Vimes

País: Portugal
Região: Açores
Local: São Jorge
Concelho: Calheta (S. Jorge)
Freguesia: Ribeira Seca
Morada: Largo da Igreja Fajã dos Vimes Ribeira Seca 9850 - Calheta São Jorge
Telefone: 295416230
E-mail: adg@cm-calheta.pt
Festa proposta por:
Nome: Município de Calheta
E-mail: adg@cm-calheta.pt

“Na Fajã dos Vimes, as festas do Espírito Santo sempre foram comemoradas de duas formas que, a certo momento, se unem.
Havia uma irmandade do Espírito Santo composta por catorze “irmãos” que davam os jantares no fim de semana do Espírito Santo e da Trindade, os chamados “Gastos do Espírito Santo”.
Todos os anos, dois irmãos davam um “gasto”, existindo mesmo uma determinada ordem, eram sempre os mesmos dois que davam no mesmo ano, o que fazia com que cada par de “irmãos“ dava os seus “gastos” de sete em sete anos. Foi essa irmandade que construiu o império que, ainda hoje, existe na Fajã dos Vimes.
A preparação do gasto começava semanas antes. O mordomo convidava os homens para ajudarem a apanhar, cortar e rachar a lenha e as mulheres para ajudarem na preparação das comidas e doces próprios da época. No primeiro dia, faziam-se as rosquilhas, os ginetes e as espécies. No segundo dia, faziam-se as caldas e o doce era guardado em cestos de vimes, às camadas, em lençóis de paninho fino que eram aquecidos no forno, porque, quanto mais quentes os lençóis, mais depressa o doce embranquecia. O doce tinha que ser mudado todos os dias para se colocarem lençóis novos, para ele ficar branco e não humedecer. Eram também cozidas as espécies, o pão para as sopas, o pão das esmolas, o pão de mesa, os bolos de coalhada, os biscoitos, as rosquilhas de massa lêveda e o pão-de-ló. Cozia-se também pão de milho e bolos de milho para as pessoas que estavam lá a trabalhar. Durante a semana, rezava-se e cantava-se o terço na casa dos mordomos. Na sala era montado um altar enfeitado com flores, onde era colocada a coroa. No último dia de terço, (sábado) brindavam-se as pessoas com as rosquilhas de massa lêveda e também se presenteavam com rosquilhas as pessoas que iam na coroação. O senhor padre recebia um presente dos mordomos que era composto por uma posta de carne grande, um pão de esmola, um biscoito, um pão de mesa, doze rosquilhas de massa lêveda, um pão inteiro e um prato de doce grande.
Na sexta à tarde antes da festa, matavam-se as vacas e  fazia-se um cortejo com violas e cantadores qua cantavam quadras alusivas ao tempo. O gado era enfeitado e seguia acompanhado por um cortejo que ia desde a casa dos mordomos até ao calhau, onde era morto e arranjado. O fígado era logo mandado para casa para as mulheres o prepararem e guisarem para a merenda, sendo depois acompanhado com bolos de milho e pão de trigo. No dia seguinte os homens picavam a carne, que era depois benzida pelo Sr. Padre e a seguir davam-se as esmolas. Num jantar era de obrigação darem-se doze esmolas, mas num “gasto” tinham que ser vinte e quatro esmolas.

Também se salgava a carne para as sopas e temperava-se outra para fazer a carne assada. Era tradição na Fajã dos Vimes dar sempre carne assada e não se fazia arroz doce. Às vezes, também se fazia uma molha de carne para se comer no Domingo de manhã.
No Domingo, os convidados reuniam-se em casa dos mordomos antes da missa para formar a coroação que vinha em cortejo até à igreja. O cavaleiro levava a bandeira e os ajudantes as varas que eram enfeitadas com flores e fitas. A missa era por volta do meio-dia e as sopas a seguir.
A meio da tarde, fazia-se o cortejo do doce que era também acompanhado por tocadores, cantadores e foguetes. Os doces eram transportados em açafates e cestos de vimes, desde a casa dos mordomos até à igreja, e depois eram distribuídos pelas pessoas, que eram também servidas com vinho e, no fim da tarde, com bolos de véspera.
A outra parte da festa da Fajã dos Vimes divide-se em dois grupos. A fronteira de divisão era o “rio” dos inhames. Assim, os habitantes que viviam no lado da fajã onde existe um pequeno porto de pedra rolada, dizia-se que eram do “lado do porto” e os que viviam para lá do “rio” juntamente com os habitantes da Fajã dos Bodes eram os do “lado do rio”.
Geralmente na quinta-feira do Corpo de Deus, faziam-se umas comédias e no final brindava-se com vinho. Mais tarde, começaram a dar lapas e bolos de milho, bolos de véspera partidos, com queijo e tremoços. Contudo, devido à escassez de lapas começaram a dar peixe frito com molho cru, em vez das lapas, tradição que se mantém, até hoje.
Com o passar dos anos e com o grande surto de emigração à semelhança de todos os lugares, a Fajã dos Vimes também sofreu, pelo que alguns “gastos” já deixarem de ser dados e também se alteraram alguns costumes. Atualmente, devido ao reduzido número de pessoas que habitam na Fajã dos Vimes já não há mordomos para a Casa do Espírito Santo, as poucas pessoas que ainda podem trabalhar juntam-se e continuam a manter as festas, embora com bastante custo, visto que estas parecem ser procuradas por um número cada vez maior de pessoas.” (a)

(a)  Texto de Clímaco Ferreira da Cunha

https://www.youtube.com/watch?v=Ss2xvqvpuuo


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