Irmandade do Divino Espírito Santo da Calheta

Festa com 132 anos
País: Portugal
Região: Açores
Local: São Jorge
Concelho: Calheta (S. Jorge)
Freguesia: Calheta
Morada: Rua 25 de Abril 9850-032 Calheta
Telefone: 965615423
E-mail: adg@cm-calheta.pt
Ano da Fundação: 1889
Festa proposta por:
Nome: Município de Calheta
E-mail: adg@cm-calheta.pt

“Desde há muito tempo que se realizam as festas do Divino Espírito Santo na Calheta, as quais mantiveram-se, pela tradição, até aos nossos dias. No fim do século XIX, mais concretamente em 1889, foram elaborados os primeiros estatutos desta Irmandade que, na altura, era subscrita por quarenta e oito irmãos e encabeçada pelo vigário da freguesia António de Paula Vieira.

Nesse tempo, apareceu a limitação, curiosa e completamente desajustada ao presente, que impedia as mulheres casadas e os menores de serem irmãos, sem as necessárias autorizações dos maridos ou dos pais. Esta situação manteve-se, ainda, pelos estatutos de 1961. Para além disso, os referidos indivíduos não podiam eleger ou ser eleitos. Hoje em dia, este assunto apenas tem efeito para os menores.

A Irmandade era e é constituída por uma Assembleia Geral, Concelho Fiscal e Mesa Administrativa e formada pelos irmãos grandes e irmãos pequenos, que pagam uma quota. Também fazem parte desta Irmandade, os mordomos do vinho e dos bolos, sendo os primeiros nomeados para o ano seguinte, pelos que os precedem. O mesmo acontece com os dos tremoços, muito embora estes sejam uma organização independente que não se rege pelos estatutos da Irmandade. A comissão dos bolos utilizava outra fórmula. Hoje, é nomeada a cada três anos. Os mordomos do vinho e a comissão dos bolos, embora funcionem em separado, prestam obediência financeira à Irmandade, conforme rezam os estatutos.

No início existiam os “foliões”, grupo composto por três cantadores que se exibiam com a sua bandeira e tambor e iam almoçar com o mordomo nos dias das festas.”(a) “Nos Domingos do Espírito Santo e da Trindade acompanhavam o cavaleiro e os passeadores na distribuição do doce da respetiva Irmandade e, à noite, levavam a coroa ao novo mordomo.”(b) “Ao servir das sopas, nesta altura, era da praxe ou etiqueta, virem para a mesa os serviços cobertos, sendo descobertos só depois de várias quadras cantadas por esses foliões. Além destes, existiam nestas festas várias motivos de diversão, tais como: bandos, bailes, danças de fitas, de arcos, de maços, desafios entre cantadores acompanhados da nossa viola da terra, etc. Estes foliões “eram nomeados pela Câmara que lhes pagava com a obrigação de acompanharem os vereadores quando iam à Igreja nas festas de El-Rei.”(c) “Nessa altura, e integrada nas festas, os marítimos faziam também a sua festa, na segunda-feira do Espírito Santo, a que chamavam “dar as suas mesas”. Consta que cada “companha” colocava a sua mesa na praça pública, com carne guisada, pão e vinho que distribuíam por todas as pessoas, depois da bênção efetuada pelo pároco. Para satisfazer estas despesas era feito durante o ano um quinhão de peixe, a que chamavam o “quinhão do Santo”. Cada companha tinha o seu tambor e formava a folia, cantando o “rimance” onde constavam os seguintes cânticos: “a marinheira”, “a ermida do mar”, “Dona Silvana” e outros.

Tudo isto desapareceu, há muitos anos.

Sempre foi hábito destas festas serem abrilhantadas por foguetes. Estes são lançados em diversas ocasiões e servem para avisar que algo vai acontecer: marcam a hora para o terço; assinalam a saída do cortejo do império ou da casa do mordomo; a chegada deste à igreja; o levantar a Deus, o principiar a servir as sopas; o arraial; etc. Consoante a disponibilidade financeira dos mordomos, são lançados mais ou menos foguetes.

Havia os chamados “jantares” e os “gastos” os primeiros realizavam-se e ainda acontecem durante os seis domingos que vão desde a Páscoa até ao Espírito Santo e que resultam do pagamento de promessas das pessoas, razão pela qual em alguns Domingos não se cumprem, quando não há voventes. Quanto aos “gastos”, estes eram assegurados por dez dos irmãos grandes em cada ano, aos quais competia gerir e fazer as festas do Divino Espírito Santo e da Trindade, cantar o terço, à noite, no Império nas duas semanas que antecedem as Festas; enfeitar; montar o “palanque” para a filarmónica tocar à estante; convidar as filarmónicas, os cavaleiros para a distribuição do doce no arraial; as senhoras para o serviço de bazar e outros pormenores.

Na sexta-feira, realizava-se a chamada “folia do gado”, na qual os animais bovinos enfeitados com fitas e flores de papel, eram levados em cortejo, acompanhado por tocadores de viola e cantadores que entoavam cantigas alusivas ao ato e depois seguiam para o calhau, no lugar das Alcançarias, ou para algum terreiro próximo da casa do mordomo, onde eram abatidos.

Nos sábados do Espírito Santo e da Trindade, à tarde, eram distribuídas sessenta esmolas, consistindo cada uma, numa posta de carne, um pão grande e um litro de vinho. Eram colocadas em mesa própria para esse fim, diante do Império, sendo, depois de benzidas, entregues a pobres que recebiam, antecipadamente, um bilhete para esse efeito. Esta cerimónia era acompanhada por uma filarmónica e por muita gente que assistia à referida distribuição, enquanto o senhor Padre ia à casa do Espírito Santo benzer os bolos e o vinho. Para a comissão dos bolos, cada casa fornecia, por norma, um bolo por pessoa, sendo estes confecionados pelas próprias famílias, para serem depois distribuídos a toda a gente perto do fim dos arraiais nos dois domingos. Com esta finalidade, é feito, hoje, um peditório na freguesia e os bolos são encomendados nas padarias e distribuídos nos arraiais, como acontecia anteriormente.
Atualmente, são dez irmãos para cada Domingo. Servem-se sopas a todas as pessoas da freguesia e efetua-se a distribuição destas pelos domicílios das pessoas que estão incapacitadas de se deslocarem. São também convidadas pelos irmãos que fazem a festa, pessoas de fora da freguesia ou forasteiros que aparecem.

Á noite, há bazar, arraial e concerto de música à estante, em regra, pela filarmónica da Calheta. O bazar funciona com artigos doados pela população. Na sede da Irmandade, há uma mesa recheada com doces, bebidas e outras iguarias para brindar todas as pessoas presentes. Entretanto, é entregue o doce aos irmãos que pagaram a quota e são distribuídos os bolos de véspera no arraial a todas as pessoas.

Havia, ainda, a Festa dos Tremoços que era realizada, na tarde do sábado da Trindade, na Fajã Grande. Para o efeito, era pedida, para esse dia, uma casa onde se realizavam os bailes regionais, durante a tarde, e eram servidos alguns petiscos, nomeadamente, lapas, pão de milho, tremoços e vinho. Para o fim da tarde, as pessoas vinham em cortejo com um carro de bois enfeitado, tocando violas, cantando e distribuindo tremoços, para a casa do Espírito Santo, onde depositavam o resto da citada iguaria  na casa do vinho, que depois era distribuída no arraial, a quem a desejasse.

As diferenças do passado para o presente não são muitas: para as comissões do vinho e dos tremoços já são nomeadas senhoras; o gado, presentemente, é morto no matadouro; as esmolas, que noutro tempo eram sessenta, agora são trinta; foi retirada a distribuição em público dessas esmolas no sábado que antecedia as festas, as quais  passaram a ser entregues nos domicílios dos pobres; também desapareceu o costume dos cavaleiros que faziam a distribuição do doce no arraial, passando o mesmo a ser entregue em mão na casa do Espírito Santo.”

No ano de 1999, a Direção da Santa Casa da Misericórdia resolveu integrar a festa de São José nas do Divino Espírito Santo, mais concretamente no primeiro Domingo depois da Páscoa, tendo-se vindo a cumprir, desde essa altura, esta tradição. No entretanto, os grupos foram-se organizando e, no ano de 2014, aconteceu uma situação inédita, em que pelo pagamento de promessas e por devoção, foram preenchidos todos os Domingos, dando origem a que, naquele ano, se realizassem onze festas tendo sido servidas nas mesmas mais de quatro mil almoços.

Neste período festivo, nos Domingos de manhã, são distribuídas sopas, carne e arroz doce pelas casas das pessoas que, por incapacidade, não podem deslocar-se ao salão, sendo as mesmas entregues, também, no Centro de Atividades Ocupacionais, no Lar da Terceira Idade e no Centro de Saúde, para serem consumidas pelos seus utentes e trabalhadores.
Não há localidade no Concelho da Calheta que não comemore as festas do Divino Espírito Santo, cada uma com as suas particularidades, mas todas com o mesmo simbolismo: prestar homenagem à Divindade, quer por devoção, quer por agradecimento das graças concedidas.

As festas fazem parte de uma cultura e de uma tradição, que o tempo não apagou e cuja chama continua acesa para manter o símbolo de quem nos protege.”(a)

(a) Textos da autoria de Clímaco Ferreira da Cunha
(b) Cunha, Regina de Azevedo Pires Toste Tristão da, “Da Tecelagem ao Trajo” editado pelas BLU Edições, 2000
(c) Notas históricas, Calheta, São Jorge,1924, vol. I, p.424


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