Festa do Divino de Paraty

País: Brasil
Região: Rio de Janeiro
Ilha: Paraty
Festa proposta por:
Nome: Diuner Mello

A Festa do Divino em Paraty, RJ – Brasil é realizada por um festeiro e não por uma irmandade, uma vez que nesta cidade não há memória da existência de qualquer Irmandade do Divino Espírito Santo.  Existiu, sim, um Império, construído em alvenaria, junto à Igreja Matriz de Nossa senhora dos Remédios, que foi demolido no período de decadência da cidade entre o início e meados do século XX – 1900/1950.

Hoje, o império, um dossel com cortinas de veludo e uma mesa dignamente forrada sobre a qual ficam expostos a Coroa, o Cetro e a Salva, ladeados por dois candelabros, todos em prata ricamente lavrada,   costuma ser instalado na casa do Festeiro. A Festa é, popularmente, conhecida como Festa do Divino e não, como nos Açores, Festa do Divino Espírito Santo.

A Festa do Divino é constituida por duas partes distintas: uma de natureza religiosa e outra de índole profana. A primeira realiza-se na Igreja Matriz: novena, ladaínha e Missas. A segunda, composta por diversões de âmbito lúdico-cultural, tem lugar na praça fronteiriça à Igreja e na quadra de basquete.

Considerando que a coroa, o cetro e a salva em prata, bem como o resplendor do Divino em madeira são do Séc. XVIII, presume-se que a festa tenha surgido em Paraty no Séc. XVII, aquando da criação do povoado ou de sua elevação a Vila.

A festa anuncia-se com o levantamento do mastro, no domingo de Páscoa e os festejos decorrem durante dez dias: nove dias de novena e o décimo tem lugar no domingo de Pentecostes (50 dias após a páscoa cristã).

O Mastro da festa é um tronco roliço com cerca de 10 m de altura, pintado com listas ascendentes, nas cores branca e vermelha, encimado por um quadro com o símbolo do Divino e sobre este uma pomba em madeira. A Festa inicia-se dez dias antes do Domingo de Pentecostes.

As atividades que enformam a parte religiosa da festa são: as procissões de bandeiras que saem da casa do festeiro (império) para a igreja Matriz e vice-versa. Na ida, passam pelo domicílio de um morador para apanhar a bandeira “da promessa” e, ao retornarem ao Império, deixam-na a pernoitar na casa de outro fiel devoto. Isto acontece todos os dias da novena. Na última noite da novena, na Igreja Matriz, durante a Missa, é realizada a coroação do jovem imperador. Depois destas cerimónias, realizam-se na praça shows musicais e outras atividades como gincanas.

No sábado, é servido o almoço comunitário para cerca de 3.500 pessoas e durante a manhã, são distribuídas “cestas básicas” (cesta com géneros alimentícios) aos pobres. Ainda nesta manhã, um “bando precatório” percorre os bairros e a cidade angariando donativos para a festa. O bando precatório consiste numa procissão de bandeiras acompanhada da folia e da banda de música. Uma solene e festiva procissão pelas ruas do centro histórico encerra as festividades religiosas, seguida de queima de fogos de artifício.

Até à década de 1960, o festeiro era sorteado durante a missa solene, pela manhã do domingo de Pentecostes. Hoje, o interessado envia uma carta ao Pároco comunicando a sua intenção de fazer a festa e uma comissão de paroquianos, dentre os pretendentes, escolhe o festeiro do próximo ano. Ao final da procissão de encerramento, à noite, anuncia-se nome do novo festeiro para o ano seguinte, que recebe, então, da mão daquele que encerra a festa a bandeira, a coroa, o cetro e salva.

Esta é, talvez, a maior festa religiosa de Paraty, com imensa e fervorosa participação dos fiéis. É a festa que une e congraça os moradores da cidade, das roças, das praias e ilhas em fraternidade e alegria. A devoção ao Divino Espírito Santo em Paraty é muito grande e o povo vê-a, não somente como uma devoção  religiosa, mas sim, e acima de tudo, como um momento de irmanação num só povo.

À guisa de complemento adicional, enriquecedor do que acima foi relatado sobre a Festa do Divino em Paraty, é pertinente  referir que:

– Os géneros alimentícios para a confeção do almoço e feitura da cesta básica são doados, generosamente, pelo povo e são as mulheres que preparam e servem este almoço;

– No domingo da festa, o Imperador distribui doces pelas crianças e povo em geral;

– O Imperador e a sua Corte (2 vassalos e 4 guardas) são escolhidos pelo festeiro e trajam cópias da farda da Milícia da Vila de Paraty do Séc. XVIII. O imperador tem assento na igreja num trono armado junto ao altar mor;

– Até 1988, após a Missa Solene da festa, o Imperador libertava um preso comum como indulgência imperial, a partir de então, uma pessoa adrede escolhida se faz passar por preso. Isto porque a nova Constituição brasileira não mais permite a prisão de alguém sem culpa formada. Anteriormente, o preso liberto estava preso por briga, bebedeira ou outro delito menor. Há que se ressaltar, porém, que um Juiz em sentença absolveu um preso determinando que fosse libertado pelo Imperador do Divino; outro caso é o de um devoto que fez promessa de ser solto pelo Imperador no dia da festa e ,no sábado, foi até à delegacia e explicou o caso ao delegado que lá o manteve até ao dia seguinte, para que o Imperador o livrasse;

– No percurso do Bando Precatório a bandeira visita as casas de alguns moradores para ser beijada por eles e colocada sobre os enfermos acamados para que sejam abençoados;

– No Sábado, véspera da festa, após a Missa, o Imperador dirige-se à quadra de basquete, onde, sentado num trono ricamente ornado, secundado por seus vassalos e guardas, assiste às danças folclóricas em sua honra: Dança dos Velhos,

– Dança das Fitas, Cateretê e Ciranda (de Paraty) e à Congada da cidade de Cunha, vizinha, no Estado de São Paulo. Nesta noite, também se apresentam as figuras folclóricas da ”Minhota”, Boi-da-festa, Cavalinho, “Peneirinha”, que divertem a criançada. Estas figuras são armações de pano, forradas de tecidos, movimentadas por uma pessoa em seu interior;

– A folia do Divino é um tradicional grupo de músicos e cantadores, com viola, cavaquinho, rebeca, pandeiro e caixa, que canta os louvores ao Espírito Santo e anima todas as procissões;

– As casas das ruas da cidade são enfeitadas com bandeirinhas coloridas, bandeiras e tecidos nas cores banca e vermelha com o símbolo do Divino.


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